De Lázaros e Fariseus - Portal Identidade Campeira

Page Nav

HIDE

Grid

GRID_STYLE

Breaking News

TRUE

Classic Header

{fbt_classic_header}

De Lázaros e Fariseus

De Lázaros e Fariseus, o poema vencedor do 2° Festival Florada de Versos de Blumenau/SC, que aconteceu no dia 25 de setembro de 2021. Parabé...


De Lázaros e Fariseus, o poema vencedor do 2° Festival Florada de Versos de Blumenau/SC, que aconteceu no dia 25 de setembro de 2021. Parabéns Carlos Hahn.

 
De Lázaros e Fariseus
Autor: Carlos Roberto Hahm
Declamadora: Liliana Cardoso
Amadrinhador: Jean Carlo Godoy

Andando pela rua, eu não os vejo.
Só enxergo a tela do celular.
Melhor, eu finjo que não percebo.
E cuido para não tropeçar.

Caídos na calçada, vários corpos.
Seres semicobertos que não se mexem.
Estarão vivos, estarão mortos?
Não me importo.
Não quero ver. Não é problema meu.

Não vejo, não ouço, não gosto, não sinto.
Olhos, ouvidos, paladar e tato me protegem. Mas o quinto sentido, o olfato, me trai e eu os percebo.
Farejo um cheiro nauseabundo.
Um humano apodrecendo, moribundo.
Lázaro, a quem não falta pedaço, mas lhe falta humanidade.
Não a dele, mas a nossa humanidade. Se é que a temos.

Um sentimento, então, me assalta.
Não é compaixão, é repugnância, é raiva.
É repugnância a seres humanos fedidos.
Mas, também tenho repugnância a seres humanos que não fedem, nem cheiram.
Seres que não cheiram o fedor do abandono e da solidão de seus iguais.

Também sinto raiva.
Raiva de mim mesmo.
Raiva de ser conivente.
Raiva de não me abaixar para um gesto de carinho.
Raiva de ser mesquinho e de não gritar, protestar.
Raiva de não exigir uma solução.

E, assim absorto, ouço uma voz empoderada.
Uma voz nababescamente empoderada.
Uma voz que me diz.
“Não te aflijas, não te culpes, a culpa é deles”. Eles não querem trabalhar.
Eles merecem estar aí.
Eles querem estar aí.
Eles, de certa forma, são felizes.
Não têm que cumprir horário, não têm chefe ou patrão.
Não precisam pagar impostos. Eles preferem viver assim. 

Assim? 
Viver?
Felizes?

Ali perto, passou uma madame com seu cachorro.
Cachorro de banho tomado. De pelo aparado.
Penteado e perfumado.
E o cão cheiroso se dirige aos mendigos fedidos.
Cheira-os, sem nojo.
E aroma-os com seu perfume de pet shop.
Um dos que ali jaziam acorda.
Exibe um sorriso fedorento. Ou um fedor sorridente.
O cão abana seu rabo e lhe faz festa.
Mas a distinta madame o recrimina:
“Fifi, sai daí. Não vai te sujar”.
Puxa-o pela coleira e segue andando.

E, ante tantas evidências, a gente ainda teima em dizer que pertencemos à espécie mais evoluída.

Sei que alguém haverá de dizer: “Ah, mas isto é Brasil!”.
Eu digo não!
Isso acontece em Porto Alegre e em São Paulo. Aqui em Blumenau.
Mas também acontece em Nova Iorque, em Bangladesh, em Paris, em outros lugares.
Em qualquer lugar do planeta.
E quando Marte for colonizado vai acontecer lá também.

Em todos os lugares do mundo há um cheiro de abandono e solidão.
Não são seres humanos que desistiram.
São seres humanos que foram desistidos.

Nenhum comentário

Gracias, em breve entraremos em contato!