O Dr. Albino Portela Fagundes e a Dona Amélia Cabral Portela Fagundes eram duas pessoas maravilhosas, a quem conheci muito, pais de Glênio e Paulo, meus amigos e meus irmãos de poucas e boas que fizemos pelos caminhos do Rio Grande, do Brasil e da América Latina. 

O Paulo, a quem eu carinhosamente chamava de Bola, tinha um ouvido mágico, era um belo violão, bom gaiteiro e tinha uma voz privilegiada. Até a morte do Bola os dois irmãos eram inseparáveis. Até casaram com duas irmãs. O Bola nos deixou prematuramente, mas o Glênio, graças a Deus, está conosco, com sua ternura, com seu violão inseparável, e com seu programa Galpão Nativo, há 25 encantando o Brasil pela TVE. 

O Glênio nasceu em Cacequi, quando o pai era médico da rede ferroviária e ali viveu até os 18 anos, quando se transferiu para a cidade de Rio Grande e depois definitivamente para Porto Alegre. Eu conheci os dois irmãos em 1955, graças a minha amizade com Jarbas Cabral, irmão da dona Amelinha. O Jarbas foi quem introduziu, com seu violão e sua voz privilegiada, o cancioneiro argentino entre nós. Nos seus tempos de rádio, ele usava o nome artístico de Carlos Medina. Quando surgiu o programa Grande Rodeio Coringa, o Jarbas criou o conjunto Os Gaudérios, referência obrigatória da música regionalista gauchesca. O Glênio sempre foi o seu discípulo predileto. Em 1959, quando fundamos o Conjunto de Folclore Internacional, lá estava o Glênio e o Paulo cantando e tocando. Mais tarde, seguindo o rastro do tio famoso, o Glênio fundou e dirigiu o conjunto Os Teatinos, que teve notável atuação enquanto existiu. Glênio tem o seu livro Cevando o Mate com várias edições e agora está preparando o Poemas Terrunheiros, Aforismos e Relampejos, reunindo a sua considerável obra poética. Gravou, também, um disco com suas composições e dois com Os Teatinos. 

Nós temos dois santos autênticos no gauchismo: um é o Glênio e o outro é Paulinho Pires, homens no verdadeiro sentido da palavra, artistas que dividem com os outros generosamente o dom que receberam de Deus, de transformar em música e poesia o mundo à sua volta. O Glênio está aí. Na sua casa, rodeado pelo amor da esposa Tita e dos filhos Nicássio, Cassiana, Osíris, Terêncio, Horácio e Juvêncio, que já lhe deu a neta Bibiana, mas rodeado também de amizades e do respeito do Rio Grande inteiro, que tem por ele e por sua obra um carinho muito grande. O Glênio é um homem profundamente espiritualizado, que conversa com as plantas e com os bichos do campo. Seu jeito simples, com a melena e a barba entordilhando, é a imagem daqueles gaúchos antigos, santos e guerreiros dos nossos galpões. Por onde passa, o Glênio deixa um rastro luminoso. Ouvi-lo falar é beber filosofia e ternura. Ouvi-lo tocar o violão com boca de salamanca é retovar-se de magia e encantamento.


Fonte e Texto: Coluna do Nico Fagundes em ZH-04/06/2007

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Identidade Campeira

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